Diáspora
Josué Mattos

A dispersão é o movimento que define Diáspora. É feita de matéria resistente, dividida e interligada entre força feminina e animal. Não esconde identidades saqueadas, sendo entendida como objeto de construção de um tempo saturado de “agoras”¹ , que define o conjunto de obras de Márcia Porto, mantido desde o final de 1990. As Ginaiques, mulheres errantes, autorreferentes e estrangeiras simultaneamente, transitam livremente em busca da origem esquecida, convivendo com ideias criadas sobre si por quem acabou por transformá-las em ameaças ao homogêneo. Tudo porque saíram sem olhar pra trás. Vagamente ciente de certo desconforto no ar, uma entre elas encabeça o movimento que desestabiliza processos homogeneizantes. Intrusas, testemunham a estupidez de vozes que acolhem o estrangeiro, fazendo com que este se adeque as particularidades do local por onde passam. No entanto, como a Diáspora não tem identidade fixa e carrega a sua origem lacunar, preenchida por particularidades encontradas em cada novo lugar, ao trafegar por vielas labirínticas, essas mulheres convivem com perguntas que ecoam por todos os lados, como aquele hino choroso que Caetano cantou: “existirmos: a que será que se destina?” As respostas renovam a urgência do movimento.
 

Constituída por memórias picotadas, Diáspora é gerada pela insaciável fome do lugar do outro. É resultado de um processo de colonização do ver, pensar e trilhar. “A gula do chão vai comer o meu olho”, disse certa vez Manoel de Barros. A Diáspora, que a artista constrói sobre esta arquitetura temporária, se dá após a perda do chão e a decorrente experiência da instabilidade geradora de contato com o imprevisível. As Ginaiques caminham na esteira do que Lovecraft entende por estranha suspensão, na medida em que participam de um processo migratório invariável, trilhado por tempo indeterminado e que afeta a todos os que vivem. Restitui o direito ao eterno retorno, evocando a presença do animal como aquele capaz de reunir em um só corpo instinto, amor e selvageria. 
Sugadas por buracos situados acima das cabeças, as mulheres de Diáspora reconhecem a experiência singular e o engajamento com a decodificação de abstrações do percurso a ser trilhado – com suas riquezas e assombros simultâneos – como os principais fatores responsáveis por fermentar êxtase ou angústia. “Às vezes passo por desfolhamentos”, replica Manoel de Barros em relação ao sujeito atravessado por momentos de recuperação de si.

 

A sensação de perenidade que anima o corpo frágil favorece a construção da ideia segundo a qual cada etapa vencida torna sempre maior a clareza do não saber. Por isso a intuição, devoção ancestral e selvageria heterogênea contrariam a barbárie e modelam atos, palavras, coisas e subjetivações, de modo a mensurar meticulosamente o que carregar entre um lugar e outro. Daí presenciar o modo particular com que as Ginaiques aparecem como portadoras de pesos que não comprometem o ir e vir. A artista introduz essas mulheres conforme segue: “Há muitas gerações as Ginaiques esqueceram sua origem e, libertas da ordem do tempo, evocam: Quando foi que deixamos a porta aberta?”
 

Presos ao próprio corpo, os pesos lançados adiante facilitam o deslocamento. São tranças conectadas a carneiros, mas também podem ser vísceras ou um cordão umbilical que as prendem à terra. Figuras telúricas, sentem o eventual sufocamento causado pelas cordas que as prendem ao chão, que o forte vento, assoviando musicalmente ao longo da trilha das mulheres feitas apenas de alma, faz questão de desestabilizar. Preocupadas em desintegrar as estéreis convenções identitárias do corpo, elas assumem o que Lovecraft diz em Alienação: em carne e osso nunca esteve longe. Por isso, para prosseguir, o objeto-corpo é lançado à frente. Recuperado, serve de contrapeso para os próximos movimentos da alma.
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¹A ideia de tempo saturado de “agoras” tem origem nas “Teses sobre o conceito de história”, de Walter Benjamin. Em particular, no trecho em que aparece, como epígrafe, o texto de Karl Kraus: “A Origem é o Alvo”, onde se lê, justamente, que a história é constituída pela saturação de “agoras”, algo que parece mobilizar as Ginaiques.

    © 2017 by Márcia Porto

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